terça-feira, 2 de julho de 2019

Anunciação


 

Catharina Horn. Eu não me surpreenderia nada se vocês não conhecessem Catharina Horn. Não me surpreenderia, porque ela era minha bisavó e vocês não têm necessariamente como nem porquê conhecer minha árvore genealógica.
Mas, e quanto à Hildegarda de Bingen, Margery Kempe, Jane Anger, Aemilia Lanyer, Margaret Fell, Antonia Bourigue, Eleanor Davis, Anna Trapnel, Christine de Pizan, Anne Bradstreet, Margaret Cavendish? Aphra Behn?
E quanto à Nísia Floresta, Maria Firmina dos Reis, Carolina Maria de Jesus.
A anunciação da palavra.
Na história das imagens e na história dos enunciados, a anunciação é sempre masculina. As coisas insistentemente sopradas no ar pela boca das mulheres são balbúrdia, insensatez desconcatenada, que se leva décadas para levar a sério, quando, por felicidade, se as ouve en passant em algum momento, de modo atrasado e em prejuízo de suas pessoas – porque já morreram, porque enlouqueceram, ou porque já estão fazendo outra coisa. Na história das imagens e dos enunciados, a dádiva da anunciação é uma usurpação. É algumas vezes uma mordaça, mas incontáveis e desesperadas vezes, um ouvido surdo. Como se as nossas não fossem palavras, não de verdade. Como se as nossas não formassem um sentido, uma frase, um pensamento, cuja integridade valesse a pena escutar. Aparentemente, não vale mesmo a pena. Aparentemente, nossas ideias se soltam umas das outras, e todas as letras que tanto nos empenhamos em juntar uma atrás da outra se desapegam entre si e tornam-se cacarejos. Na história das imagens e dos enunciados, somos aves. Algumas de bela plumagem, mas algumas cuja voz vira um eco de nada.
A história da pluma, vejam bem, não é a história das aves elas mesmas à pena de quem aquela tornou-se a história das belas-letras. A história da pluma é a história da anunciação, cujo critério é a audibilidade do grito. Um grito que passa muitas vezes por civilidade, progresso, emancipação, mas apenas porque o seu tom é o da masculinidade. Na voz de uma mulher, a anunciação vira histeria, e se perde no horizonte da irracionalidade. Curiosamente, na história das imagens e dos enunciados, até o grito tem um significado generificado.
Eu estou falando da história das imagens e dos enunciados para falar da história da anunciação, da história dos critérios daquilo que conta como ‘palavra’, como ‘teoria’, como ‘literatura’, como ‘utopia’, como ‘política’, como ‘racionalidade’. O que conta como ‘filosofia’? E o que conta, também, como ‘história’? A genealogia da anunciação, politicamente instituída como legítima, não tem mães, avós ou bisavós. Um paternalismo absoluto. Uma linhagem desprovida de parentescos femininos.
O que conta como a história da anunciação quando uma freira é figura de exceção entre patriarcas divinizados, quando a afronta de Margery Kempe é levar-se a sério a ponto de escrever uma autobiografia em pleno século VX, quando a pachorra de Jane Anger e Aemelia Lanyer é a exigência da possibilidade de uma fé feminina dita em voz alta, quando a teimosia de Margaret Fell é a independência de sua própria devoção, quando a defesa da inspiração divina torna Antonia Bourigue e Eleanor Davis lunáticas, mas não proféticas; fanáticas, mas não revolucionárias. E se os motivos da loucura de Anna Trapnel são as suas visões do paraíso espiritual feminino, a loucura de Margaret Cavendish são as suas visões do paraíso político, literário, utópico, de mundos outros que não o nosso, onde escrever constitui para uma mulher um ato heroico por excelência.
O que conta como literatura, quando a petulância de Maria Carolina de Jesus é sonhar a invenção de sua língua de cor preta como poesia?
Mas, sobretudo, que conta como filosofia, quando ‘filósofa’ é um vocábulo inexistente?
Eu estou falando da história das imagens e dos enunciados para falar da história da imaginação, da história daquilo que conta como ‘conceito’ filosófico apropriado ao mundo das ideias, da história dos conceitos hierarquicamente generificados e atravessados, além de tudo e de todas as genealogias de matriz matriarcal possíveis e em algum momento ponderáveis para nós mesmas, pelo poder da razão e pelo poder das razões determinantes segundo as quais até mesmo o grito das anunciações e dos sonhos teóricos só é legítimo como reverberação de uma abstração racional-científico-utilitária, no entanto inteiramente dependente da asserção dos corpos e das bocas dos homens. O imperativo desde aí canonizado é “não imagine”!
Eu estou falando da história das anunciações para falar da história daquilo que conta como ‘conceito’ político apropriado ao mundo dos desejos. Desejos políticos. Desejos utópicos. As próprias utopias.
Neste caso, o que conta como ‘filosofia’?, quando os desejos políticos feministas não passam de ‘misticismo’, nas repetidas alucinações de Teresa de Ávila, ou não passam de ‘literatura’, nas construções alegóricas de Christine de Pizan, ou não passam de ‘ficção científica’, nos mundos possíveis de Margaret Cavendish, quando Santo Agostinho, Thomas More e Alexius Meinong são ‘filósofos’ pelos motivos proporcionalmente inversos pelos quais as outras são ‘místicas’, ‘escritoras’ e muito, muito criativas!
O que conta como ‘filosofia’, se a imaginação não conta? E daí o que conta como ‘margem’ textual apropriada à razão filosófica, se a imaginação não conta?
O imperativo é “não imagine!”
Não imagine uma cidade de mulheres literatas capazes de sobreviver por sua conta e risco. Não imagine uma cidade politicamente igualitária. Não imagine a subversão política das mulheres. Não imagine, filosoficamente.
Ai de mim, que passo a vida imaginando, em cada lufada de minha respiração. Uma genealogia descendente de mães, avós e bisavós literatas e filósofas cujas plumas constituam a anunciação da palavra como ‘filosofia’.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Contra a República de Gilead

The Handmaid's Tale - Hulu Productions


Qual é o tempo de uma distopia? Quanto tempo leva para chegarmos ao futuro? Quantos anos nos restam para a instauração de um patriarcado teocrático totalitário? Quanto tempo temos ainda para o usufruto de nossa liberdade republicana e democrática? E quanto tempo leva para tudo perdermos? A república, a democracia, a liberdade, e até mesmo o futuro. De quanta ilusão é feita uma distopia, para que ela seja o nosso pior pesadelo? Ilusão o bastante, talvez, para as saídas utópicas pelas portas dos fundos. Mas não ilusão o suficiente. Porque a irrealidade das utopias é brutalmente contraposta à facticidade de nossos atos imaginativos, literários e políticos distópicos. E qualquer insurreição contra a República de Gilead é uma insurreição contra o passado presente nas distopias.
Porque, afinal, onde é Gilead? Gilead é o coração de cada uma de nós. É nosso corpo e nossa entranha e nosso desejo. Gilead sou eu e a coisa pública que é feita de mim, ou das partes que em mim interessam à fraternidade humana. Gilead é o meu medo político. É o nosso medo de estupro, de abandono, de confinamento, de iletramento, de domesticação. É o nosso medo de Deus. De sua onipresença filosófico-histórica como justificativa para a justiça feita em Seu nome. É o nosso medo da justiça. E de seus correlatos Iluministas. E o nosso medo dos nomes que as coisas têm nas mãos dos homens de Deus, assim como nas mãos dos homens de bem, dos justos, e até mesmo dos revolucionários. Abençoados são os fracos, porque são eles que os servem. Abençoados são os iletrados, porque são eles que os obedecem. Gilead é a nossa conformidade às bênçãos da conceituação filosófica. Gilead é o poder das palavras de criar um mundo. É o nosso assentimento e a nossa anuência à continuidade desta fraternidade conspiratória em nome da liberdade – em nome de Deus, em nome da justiça. De sua liberdade, claro. De sua cidadania. De sua igualdade. Uma igualdade constituída de branquitude e virilidade. É claro. Enquanto nós nos conformamos aos ideais de sua República, abençoadamente para eles. A coisa pública, aqui, somos nós. Gilead é a nossa esquina filosófica conceitual, o nosso mundo das Luzes imperativas, das iluminações masculinizantes. E qualquer insurreição contra a República de Gilead é uma insurreição contra o passado presente nesta distopia. Afinal, quanto tempo leva para chegarmos ao futuro, quando o futuro nos trouxe até aqui?
Ou não deveríamos ver nas incursões pedagógicas do Centro Vermelho ordenado e vigiado pelas Tias as sombras do disciplinamento regularmente instrumentalizado e da docilização dos corpos diferentemente afeminados tantas vezes levados a cabo pela caça às bruxas, pela patologização do feminino, pela expropriação da sua fala e do seu nome, por meio do medo, da punição, do esvaziamento epistêmico, do silenciamento multifacetado, do insulamento à reprodução humana. Com a aquiescência e o exercício do próprio poder feminino, muitas vezes, no entanto. Mas se as Tias são tão difíceis de aceitar, como o são todas as autodenominadas “anti-feministas”, não é muito melhor para nenhuma delas aqui. Tias, Esposas, Marthas ou Aias, todas são servas dos seus senhores. Nenhuma delas é de fato cidadã desta República, porque nenhuma delas detém de fato o poder sobre o próprio corpo. Afinal, é isso a cidadania, não é mesmo? É para isso que ela serve, para que sejam todos protegidos em seus corpos e em suas mentes e em seus saberes de acordo com os princípios da igualdade e da liberdade. É para isso que serve o contrato que institui peremptoriamente da Modernidade em diante e ao infinito a ideia do consentimento e do consenso político de todos para com todos mutuamente, igualitariamente, fraternalmente. É para isso que serve o pacto de coesão social, para o gozo da liberdade sem o medo da morte aleatória, do encarceramento arbitrário, da violência física injustificada. É isso a cidadania, não é mesmo? Concebida em vista de um mundo melhor, menos paternalista, menos autoritário, menos aristocrático e hierárquico, mais imparcial, mais equânime, universalmente justo e desinteressadamente concorde. Mas melhor nunca significa melhor para todo mundo. Sempre significa pior, para alguns. Sempre significa pior para nós. Porque nenhuma de nós é de fato cidadã desta República dos Contratos. Nós nunca assinamos nada, nunca concordamos com seus termos, nunca pensamos os seus direitos, nunca elaboramos os seus conceitos. Nós não somos contratantes, porque não somos indivíduos legitimamente investidos da posse da propriedade em nossa pessoa, não somos indivíduos, na verdade, não somos racionais, razoáveis, autônomas, independentes. Em última instância, nós simplesmente não somos. Ou o somos apenas como posse alheia. E esse é objetivo. É para isso que serve a desculpa perfeita da ficção política dos contratualistas. Para o livre acesso masculino aos corpos femininos – como eles assim o determinarem. Para o casamento, para a prostituição, para a servidão. Exatamente do mesmo modo como o desejam os comandantes sob os Olhos de Deus. As Esposas, as Aias, as Marthas. Parcialmente, no entanto, à meia-humanidade das mulheres é concedida a subscrição de sub-contratos – parciais, de mão única, unilaterais, privados, sempre privados, nunca públicos: de casamento, de prostituição, de servidão. E é assim que se ganha a concordância em relação a sua própria subordinação, assinada de seu próprio punho. É para isso novamente que serve o contrato fraternal moderno. À sombra de um contrato sexual de mútuo respeito quanto à exclusividade da disponibilidade deste corpo feminino – o da esposa, o da prostituta, o da serva. Os irmãos, livres do paternalismo, empenham-se na salvaguarda desta instauração social pública, politica, todo o resto relegado à conversa particular no quarto de dormir, relegado às decisões familiares da família de antemão decidida e de antemão definida de fora para dentro. A salvaguarda da publicização contratual é a salvaguarda do poder masculino no seio do lar, do casamento, e consequentemente do trabalho, sobejando aí a permissibilidade das violências – de várias estirpes e vários matizes – já que a domesticidade não é da conta de ninguém, já que a privacidade é sacralizada – a não ser precisamente por razões de Deus, claro, razões contra-reprodutivas, razões de heteronormatividade. Do contrário, o desfrute exclusivo outorgado pela unilateralidade do contrato é incumbência e prerrogativa única e definitivamente masculina – sendo desse modo ajuizado o que conta ou não como violência e o que conta ou não como liberdade. De que maneira pode, então, o nosso corpo pertencer a nós mesmas? De que modo pode, então, o contrato social amplamente propagado pela positividade de sua universalidade sustentar sempre ainda sua legitimidade ético-política se escamoteia sua história e seu regime sexual sob uma abençoada conceituação igualitarista? Quando foi, desde então – desde a convivência dos contratantes com as necessidades capitais da reprodução de mão-de-obra e, ao mesmo contraditoriamente, a sua rendição aos valores da bendição divina a serviço, bem a calhar, da dominação masculina – quando foi que nosso corpo foi nosso? Os bolsões da descriminalização do aborto – sempre ainda e de novo resistidos, combatidos e condizentemente amaldiçoados em nome da vida e dos homens de bem – apenas certificam nossa a-cidadania. Nenhuma de nós é de fato cidadã desta República dos Contratos. Nenhuma de nós, em última instância, pertence a si mesma.
O que nos separa de Offred, Ofglen, Ofwaren, mas também de Serena Joy e das Marthas, hoje, é um breve intervalo de “liberdade para” – com todos os riscos aí implicados, com todas as contradições aí envolvidas e proporcionadas pela emancipação feminina e pela necessidade de emanciparmo-nos também dela, com todas as variadas aparências da liberdade do empoderamento liberal coadjuvante das demandas capitalistas, com todas as licenças contra-heterossexuais possíveis, que muito embora continuem nos matando ainda não levam ou não levam mais, aqui e agora, à sumária e exemplar execução pública atribuída aos “traidores de gênero”, com todas as exceções de permanente violência, e sabemos todas nós dos seus números, estatísticas e histórias, todos os dias – um breve intervalo de “liberdade para” sem que estejamos de fato livres do medo, do silenciamento, da inferiorização e do sexismo explícito sempre latente, sempre pronto para explodir em conservadorismo pseudo-religioso, militarizado e bravio; pseudo-virtuoso, é claro. Embora não sejamos sistematicamente estupradas – para fins de reprodução – e muito embora aparentemente façamos parte do universo do contrato formalmente estabelecido pela fraternidade humana com o sobreaviso e contra o pano de fundo de uma política sexual racializada, o que nos separa da distopia da servidão feminina não é a ausência de um patriarcado, de uma teocracia, de um totalitarismo, nem é a ausência da concordância e da participação e da subordinação das mulheres aos seus ideais – já que encontramos mais Tias Lydias do que de fato desejaríamos – mas é um lapso entre uma história filosófica, política e epistêmica de exclusão e de eliminação e o risco sempre eminente de um futuro que apenas a reproduz sob nova roupagem. É um lapso de tempo, um lapso de “liberdade para”, um lapso de ilusão. O que nos separa da distopia da servidão feminina não é a ausência da servidão feminina, mas tão somente uma suspensão temporal entre um contrato e a fragilidade de nossa liberdade.
Será realmente possível não ser desoladoramente pessimista ante a percepção dos reflexos recíprocos entre a distopia de Atwood e a denúncia político-filosófica de Pateman?
Sim, creio que sim.
Mas apenas, lamento dizê-lo, se qualquer insurreição contra a República de Gilead for também uma insurreição contra nosso passado presente nesta distopia, contra o contrato liberal, teológico-político, filosófica e epistemicamente monológico e coniventemente capitalista.
Porque o melhor tem que ser melhor pra todo mundo, e não podemos deixar que os bastardos nos esmaguem – de novo.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Presidenta


Até meados de 2010, eu dividia minha morada canadense com uma companheira búlgara. Yanitsa Dimitrova. De repente, como brasileira, eu tinha um pedacinho do leste europeu no meu coração. Rousseff não é Silva. Mas a gente vive confundindo a Dilma com a Vilma agricultora ali de São Pedro de Alcântara. Poderia ter sido, não é mesmo? No entanto, uma operária ou uma roceira não chega a presidenta como um homem. Um homem é um homem, afinal. Uma Dilma, uma Vilma, uma Yana, uma Acilla, uma Rose, todas têm que passar das saias às calças se quiserem murmurar algumas ideias, alguns planos de governo, algumas denominações de gênero, algumas intenções de ação. Ainda que estas sejam ações conciliatórias, engessadas, cedidas e amarradas. Nunca é tudo o que se desejaria. Ou como se o desejaria. Fossem elas os homens, ninguém duvidaria. O assentimento não passa pelo crivo ou pela desconfiança do nome quando a certeza é a neutralidade masculina.
Teria sua afirmação generificada incidido sobre sua exclusão, sobre seu ostracismo político, entremeio à dominação engravatada, togada, cinzenta, pseudo-cristianizada? Teria uma autoafirmação generificada configurado a gota d’água de uma derrocada anunciada desde logo por seu nome, por sua alteridade, por sua praticidade antipática, por sua autenticidade marginal, a-feminina, a-pática, a-típica? Teria um “a” levado tudo à bancarrota? Ou trata-se apenas do “a” o mais oportuno da história parcialmente contada desse país aos seus espectadores boquiabertos, eles mesmos já a-pátridas desde o seu nome? Pre-si-den-ta. A-pá-tri-da. Ou a-mátrida? Somos filhos de quem, afinal? Da nossa mãe-preta, Lélia? Ou da nossa invisibilidade indígena, indigente?
Na terra de meu nascimento, não havia índios. Sempre o soube, que a branquitude de minha ancestralidade desbravou a floresta inútil e desabitada do oeste bravio – corruptela caipira da cinematografia épica estadunidense – para aí instalar sua corajosa pobreza e à-mercê para o privilégio de sua colonização esgarçada e faminta. Mas o bugre estava lá. Eu ouvia seu nome e sentido e andarilhar pejorativo. Não havia índios, havia bugres. Isso me disseram. Isso lhes tomaram: sua terra, sua floresta, suas reservas sobreviventes, seus saberes, sua especificidade, seus nomes, para instar-lhes a eles como ladrões, como alheios, estranhos, estrangeiros, bugres, búlgaros, hereges. A sua diversidade foi desde cedo nomeada, usurpada, por aqueles caçadores de um tipo invasor, incômodo, incoloniável, inconciliável com a brancura assente, fixa, rígida, senhorial, imparcial em sua injustiça, masculina em seu machado, serrote e arma.
Até inícios do século passado, os bugreiros fizeram milhares de mortos, a contar por alto, nos bucólicos cantos de nossa germanidade catarinense. Desde o Medievo, os bugreiros e inquisidores fizeram inumeráveis mortos em nossa Europa colonizadora. Os bugreiros, os inquisidores e os cristãos. Tudo em nome de Deus, da família e da pátria. Ora, os nossos bugres são os búlgaros da cristandade europeia. Os nossos bugres são a anomalia da hegemonia brasileira. Os nossos bugres são também os nossos búlgaros. Os nossos búlgaros são também as nossas mulheres – também os nossos negros, as nossas negras, as nossas agricultoras, as nossas trabalhadoras, a nossa presidenta e Marielle Franco. Os caçadores de bugres não existem mais com nome e profissão, apesar da exclusão territorial, epistêmica e cidadã. Os inquisidores de búlgaros não existem mais com excomunhão e fogueira, apesar das novas cercas, dos novos muros e aduanas ou dos seus naufrágios jamais resgatados. Os hereges de hoje vêm de um outro leste. Os caçadores de bugres, de búlgaros, de índios com seus nomes particulares, de bestas com suas associações demoníacas, de mulheres avessamente possuídas, de seres intercambiavelmente descartáveis, homens pretos, homens nus, de bichos que habitam demais e de mulheres com poder demais. Os bugreiros de outrora foram içados do tempo para a caça capitalista – ainda a mesma, mas agora com roupa de ir à missa, ou ao congresso. Foram içados do tempo obscuro e condenável da caça animalesca à paternidade das imagens, das fotografias por sorte e maldade lançadas ao vento do imaginário ocupado pela misoginia, pela pátria, pela lei, pela voz do homem branco. Foram içados do tempo à alegria de uma vitória feita para fotografar, para sempre, nos autos desta fraternidade que cheira à conspiração, à pacto, à golpe, à exclusão, à ojeriza sobre o feminino, mas também sobre o pouco feminino, sobre o travestido, o diverso, o bugre, o búlgaro, o “a” de todas as nossas autodenominações de gênero.
Em meados de 2016, eu dividia minha morada brasileira com milhões de súbitos apátridas. E era isso o que estávamos perdendo ao perder Dilma. Era isso ao que estávamos simplesmente regressando: a uma caça aos bugres, porque eles definitiva e peremptoriamente quebram o pacto do patriarcado branco homogeneizado; porque eles definitivamente ameaçam o seu Deus dos privilégios exclusivos, a sua casa da família piramidal, rija e infeliz, o seu senso de liberdade seletiva. Por Deus, pela família, pela liberdade, mas de quem? Não dos hereges – em quaisquer dos aspectos de sua heresia.
Em última instância é isso: a democracia, essa figura plural de nossa linguagem política, por incipiente que seja, por abrandada que possa se mostrar, é permissiva demais aos heterogêneos, aos discrepantes, aos discordantes. No fundo, a misoginia do golpe é tentacular, e avança sobre todas nós, e sobre todas as nossas bandeiras em algum sentido feministas, em algum sentido inclusivas, em algum sentido socialistas, para não fazer restar nas cadeiras do poder senão essa imagem, senão esses rostos brancos, senão esses nomes masculinos e esses sorrisos vitoriosos. Essa vitória que se dá à custa de uma Dilma, de uma Vilma, de uma Yana e de todas as Marias Lulas da Silva, aqui, com a fissura final de uma política sexual, racial e classista cujo objetivo derradeiro é aquele do bugreiro, do inquisidor, do colonizador.
Em princípios de 2018, eu divido minha morada brasileira com milhões de selváticos e súditos serviçais e sinto saudades de minha companheira búlgara.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O percurso nosso de todos os dias

A bicicleta que ela abandonou porque mora longe demais da universidade está com os pneus murchos e pegando poeira. O carro está igualmente cheio de poeira, mas é porque ela não tem muito tempo e cuidado para com ele. Ele serve de transporte, como a outros serve de roupa para suas vaidades. Ela não tem a vaidade de lavar o carro toda semana. Nem de procurar um carro mais novo. Já basta a gasolina que alimenta as empresas petrolíferas que sufocam os seus trabalhadores com os salários envergonhados diante dos números incompreensíveis dos lucros dos investidores nem um pouco interessados em energia limpa. A fumaça mais ou menos invisível desse custo sai de milhares de carros ao seu redor. 
O caminho de carro até a universidade supõe todo um universo – uma perspectiva de indiferença sobre aqueles que não têm carro porque são pobres e enfrentam a precariedade do transporte público abarrotado, atrasado e sempre monopolizado, sobre aqueles que engolem os riscos do trabalho nas refinarias, sobre o enriquecimento de alguns donos de barris em detrimento das pessoas ao redor: exilados ambientais, econômicos e políticos. Uma perspectiva de indiferença sobre as toneladas de gás carbônico respirados todos os dias pela humanidade. Ela não escolhe o caminho feito a pé, nem de bicicleta, nem de ônibus, nem de carona. E isso torna-a responsável pelo desastre ambiental iminente, pelo cofre cheio de alguns, pelo descaso aos ciclistas da parte de quase todo mundo que não pedala, pela continuidade de um sistema insustentável, pela continuidade da publicidade automotiva preconceituosa e segregacionista. Torna-a responsável pelo mundo como ele é.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

A escola

Num primeiro momento, a escola é este espaço intangível entre o gramado aos fundos de casa – o abacateiro milagroso, o rio de um imenso pesadelo – e os degraus escuros que o prédio branco subia com o morro. Num primeiro momento, é ir sozinha à escola, com as calças sujas da geada recém feita, com os pijamas contra o frio que imobilizava as pontas dos nossos dedos, na briga por saber de quem era o maior espanto de inverno. Num primeiro momento, é uma aventura que não tem nome, que se leva pacificamente, atravessando as pontes, os muros, os jardins dos outros, os degraus, e os horrores. Apenas mais tarde serão batizados aqueles atos indelevelmente significativos. De parte a outra, ninguém agora se dá conta. Num primeiro momento, é uma professora. Uma só. Depois, os exemplos paradigmáticos de um tipo qualquer de anti-pedagogia, de anti-emancipação, de anti-exemplificação da primeira pessoa do singular. Depois, é não perder tempo competindo pelo status da maior ingenuidade alcançável; de todo modo, o riso é fácil sobre todo os aspectos de sua pobreza. Neste caso, para tudo, para toda e qualquer circunstância, há os livros e as bibliotecas e as tarefas e as histórias de espelhamento. Depois, também, é o irmão que não se pode jamais – sob pena de um arrependimento que não sabe o seu nome – perder pelo caminho. Quando então o espaço da escola é também à casa; até mesmo ali se reproduz uma biblioteca; e tudo gira em torno de uma série de frases impressas que cumpre aprender para sempre. Como em todos os momentos, também aí se fixa a marca indelével das palavras – e daquelas imagens pontilhadas à guisa de gravuras, e daquelas aulas ministradas a uma assistência de vizinhos, de irmãos, de seres inanimados, de criaturas que têm uma vida de verdade para além de suas feições  iguais, que varam o dia até as histórias inventadas ao adormecer. Uma continuidade de figuras que povoam seus livros de um a outro, escritos inúmeras vezes à exaustão de se sua imaginação, a ponto de se fazerem partes inalienáveis de seu corpo. Aquele espaço intangível é então o espaço de uma grafia. Esta, a sua experiência escolar por excelência.
        Num segundo momento, é uma afronta. Que os livros ainda estão para tudo, para toda e qualquer circunstância, já não constitui um escapismo, mas uma imposição de desordem, de desobediência, de interrupção da mesmice e da pasmaceira generalizada. Uma afronta, o isolamento. Até a menina desigual, a idiota, é sua companhia de enfrentamento. Num segundo momento, é uma guerra. Não há rumo a qualquer tipo de vitória, mas a um certo tipo de sobrevivência. Bater às portas fechadas, aos teatros esvaziados pelo descaso e pela vergonha, às instâncias há muito cansadas da mesma briga, acomodadas agora a um canto de castigo benevolentemente aceito. Que ela não sabe ainda; que ela apenas começa. Não dá pra saber de antemão quanto tempo leva; mas dá para refazer, repetir, sempre, de novo, por cada uma daquelas que se esgota pelo caminho cedo demais. Num segundo momento, a experiência escolar por excelência é a experiência de uma força, de uma diferença, de uma teimosia, que se reconhece, que se transforma, que se quer, enfim, pacífica, mas ainda inquieta. A vontade de um outro tipo de conforto, de um outro tipo de tempo, de pausa, de virtude, de letra, de vida, – os livros ainda aí para tudo, pelo menos também para isso – constitui a sua rebeldia. Num segundo momento, a escola é este espaço muito concreto de descontentamento do mundo, de tangível inconformidade, incredulidade, o seu aborrecimento como um choque à lentidão alheia, à conivência de tantos, à percepção tolhida já à entrada da educação como tempo gasto, puído, dormente, maledicente. Neste instante, a experiência por excelência é aquela de um sonho que só quer sobreviver sonhando, que só faz questão da reminiscência para um respirar de intervalo – entre uma afronta e outra, entre uma e outra palavra de desobediência. Entre uma e outra grafia dissonante.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Extravio


Perder um dicionário no meio de um tumulto não é nada. Mais do que isso, é já ter esquecido as rimas, uma declamação feita pela metade, como se o silêncio subisse estômago acima. Sequestrando a legitimidade de uma voz. Como se àquelas palavras já não coubesse um pertencimento, fugidias no esvaziamento de seu espectro antes multicolorido. Com que direito, afinal, fazer uso das abertas declarações de sentido? A plenos pulmões, também como um grito de socorro. Urge proceder a um resgate daquelas palavras sequestradas pela univocidade de uma tradição, de uma ideia, de uma ideologia – muitas vezes falseada ou escancaradamente debochada – de um projeto de progresso, de uma estabilidade racional, ou nacional, de um status quo, de um delírio de sabedoria definitiva, de uma universalização. Palavras sequestradas e alijadas de sua existência polissêmica e de seu direito de inocência. Como se já não pudessem servir senão a um propósito de extorsão e paralisia e retrocesso. E ilusão. Com a soberba da certeza como guardiã de sua clausura. Com o efeito de que disso já ninguém mais duvida: apropriações supostamente literais à revelia do mundo, à revelia das próprias palavras e de sua história por recontar. À revelia daqueles que desde então passam à margem do seu único significado possível. O sequestro das palavras criando periferias de excluídos de toda sorte.
Assim, o vadio não é livre, mas uma sujidade e uma inutilidade urbana. A liberdade ela mesma não é livre, mas possuída como um bem que se compra caro – e nem mesmo assim – ou que se expressa pela voz corruptamente comprometida dos que agem em seu nome. Os próprios sequestradores. A verdade não é qualquer engajamento com a idoneidade, com a autenticidade, com o princípio – os princípios tendo todos eles sido igualmente sequestrados – mas um espetáculo ou um circo cuja propaganda é a própria prestidigitação do verdadeiro. Com o efeito de que disso já ninguém mais duvida: sem a mínima humildade, sem o mínimo reconhecimento de seu auto-engodo. A justiça não é qualquer virtude ainda sobrevivente, mas um processo infinitamente repetido nos labirintos de um imperativo. De uma moeda corrente. Que pode ser tudo, exceto justa. Com o efeito de um beco sem saída para todos os injustiçados. Resta a eles o seu sentido mais profundo. Apenas a eles. Com o que também a democracia não é um compromisso coletivo, mas uma etiqueta que legitima as arbitrariedades dos espertos. A esperteza tendo há muito sido univocamente concedida e autorizada àqueles com o manejo das palavras.
Urge proceder ao resgate das palavras. Sem pretensão de guarda. Mas também como um grito de socorro, contra sua exaustiva violência, violação, detenção, enclausuramento. No pleno direito das abertas declarações de sentido, a plenos pulmões, na legitimidade de um pertencimento inequívoco à pluralidade da própria voz, na declamação não estrangulada pelo esquecimento dos sequestros, na lembrança das rimas que não se extraviam mais. Perder um dicionário no meio de um tumulto não é nada. Pior que isso, é a perenidade dos cativeiros, das periferias e dos becos sem saída.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Mimosa


Na estrebaria, a avó tinha uma vaca preferida. Era a Mimosa.
A formosura do nome faz a gente pensar nas conversas que elas podiam ter, e nos tapinhas na barriga rechonchuda depois do leite fresco.
Para a menina que olhava de longe, ficava sempre a pergunta sobre se as vacas iam pro céu depois do fim. Não dava para saber, mas ela preferia não arriscar. E esperava que continuassem placidamente conversando com a avó ali mesmo, enquanto havia tempo.
De qualquer forma, em se tratando das vidas dos outros, não dava pra perder nenhum tempo. Para cada um, passa muito, muito depressa. Imaginar que a vida de sua amiga Laika dava só um pedaço da sua! E ela queria ficar por perto para saber como era viver uma vida de vaca, uma vida de galinha e uma vida de cachorro – desses que a gente vê passando o tempo tão despreocupadamente. (Embora ela soubesse de alguns que não eram felizes em absoluto!)
E como era viver uma vida de tatu ou de passarinho ou de onça – esses que pareciam bem mais atarefados do que ela. (Devia dar uma baita trabalho procurar comida o dia todo!)
A avó nunca contava as conversas com Mimosa, por mais que insistisse. E era uma pena, porque decerto daria para saber alguma coisa do que significava para ela viver na casa da avó. E se ela quisesse um dia ir embora?
Não dava para saber, mas ela preferia não arriscar.
Para saber como era viver uma vida de bicho, ela tinha que olhar para eles o tempo todo e eles tinham que estar por perto. E era uma pena que para alguns não desse tempo, que os levassem embora cedo demais, perplexos demais.
Ela não compreendia porquê as outras pessoas achavam isso tão desimportante, já que viviam ao lado deles tanto quanto ela. E não compreendia porquê ela devia comer sem reclamar e sem ficar inventando histórias. Mas, e se tivesse sido uma amiga de Mimosa?
Ela preferia não arriscar.